0026 – O quanto de sofrimento você precisa? – André Lima

Racionalmente, todos nós vamos dizer que desejamos nos livrar de qualquer tipo de sofrimento. Entretanto, criamos uma identificação com os sentimentos negativos guardados, e eles acabam se somando ao nosso senso de identidade, fortalecendo o ego que é o falso eu interior que carregamos. O ego nos manipula para sobreviver e crescer, e nós, de forma inconsciente, protegemos, defendemos e arranjamos desculpas para manter a negatividade interior que nos faz sofrer. 


Recentemente, atendendo a uma aluna em um curso de EFT, vários sentimentos negativos da infância brotaram durante a sessão. Seguimos o trabalho acessando e dissolvendo cada um deles. Chegou em um determinado momento onde surgiu um sentimento de tristeza com relação a sua mãe. A aluna relatou que ainda não estava pronta para liberar aquela negatividade. Por outro lado ela tinha consciência que aquilo a fazia sofrer. Vinha carregando toda aquela carga há mais de 50 anos.

Então, durante as rodadas de aplicação da EFT, fui conduzindo frases e ela foi repetindo junto comigo “ainda não estou preparada para liberar essa tristeza”; “e quem sabe eu precise sofrer ainda mais uns dez anos para ficar pronta…”. Depois que eu falei essa segunda frase, ela percebeu imediatamente o que estava fazendo a si mesma quando afirmava que ainda não estava pronta. Ela reagiu e disse “êpa… eu não quero sofrer mais dez anos…”. Falei pra ela “mas você ainda não está pronta”. Ela, então, disse que isso não fazia mais sentido. Perguntei se ela estaria pronta para dissolver e se libertar daqueles sentimentos ela afirmou que sim. Foi o que fizemos em seguida aplicando a EFT.

O que aconteceu foi que um mecanismo de autoproteção do sofrimento brotou. O sofrimento que nós guardamos deseja sobreviver e crescer. E essa energia dentro tem uma inteligência própria, é astuta, e acaba nos enganando, tomando conta dos nossos pensamentos e falando por nós. E se não estivermos bastante atentos iremos cair inconscientemente nos processos sabotadores de perpetuação do sofrimento. Acabamos por acreditar nos pensamentos negativos, damos razão a eles e os fortalecemos. É assim que o ego se mantém vivo e guia a nossa vida trazendo muitos problemas.

Todas as vezes que afirmamos que ainda não estamos prontos para mudar, inconscientemente, estaremos dizendo “ainda não sofri o suficiente para mudar”. É a manifestação do ego nos manipulando. Ele precisa da nossa inconsciência, ou seja nossa falta de percepção para poder prosperar. No momento que trazemos para a luz da consciência seus mecanismos sabotadores ocultos percebemos a sua insanidade e podemos então nos libertar, já que será difícil alimentar algo que agora entendemos que é completamente  insano.

Em várias situações da nossa vida, esses mecanismos irão se manifestar nos mantendo presos a situações que dizemos querer nos libertar: relacionamentos doentes, um emprego ruim, uma doença física, uma amizade que nos faz mal, hábitos nocivos, uma bagunça que não conseguimos organizar e etc.

Existe ainda a acomodação de estarmos em uma zona de conforto. Embora seja uma situação desagradável,  é nossa conhecida e de alguma forma sabemos lidar com ela. Reclamamos da situação, mas ela nos é familiar e não nos causa medo. Sair de uma situação qualquer exigirá mudanças. O medo do desconhecido e a incerteza do que será depois ajuda a nos manter aprisionados. Mesmo quando temos certeza que a mudança será para melhor, ainda assim haverá sempre um medo nos prendendo.

Mudar para uma nova casa ou trocar de emprego pode trazer bastante desconforto. Conheço uma pessoa que se mudou para um apartamento bem melhor, em um bairro muito melhor do que o anterior e passou um mês chorando, adaptando-se a nova moradia. Ela sempre reconheceu desde o início que o local novo era bem melhor que o antigo, e ainda assim sofreu bastante até se adaptar.

Enquanto o sofrimento estiver em um nível administrável, o ego encontrará maior facilidade em nos manipular para mantê-lo. Entretanto, com o acúmulo ou o aprofundamento de mais e mais sofrimento, chegará em um determinado limite que a dor terá atingido um nível insuportável. Nesse ponto, estaremos muito mais propensos a tomar providências que irão nos libertar. Uns finalmente conseguem acabar o casamento, outros pedem demissão do emprego, se afastam de determinadas amizades.

Quando chegamos nesse ponto, as desculpas e os medos que antes nos paralisavam perdem a força, ou simplesmente desaparecem. Vemos várias pessoas que resolvem fazer mudanças profundas em suas vidas depois que recebem um diagnóstico de uma doença grave. Aí todo aquele papo furado de que é difícil se exercitar, mudar a alimentação e trabalhar menos e se organizar acaba e a pessoa consegue fazer o que sempre soube que deveria. De repente, tudo se encaixa e todas as providências são tomadas.

Embora o sofrimento intenso seja um grande potencializador da mudança, não precisamos esperar que algo drástico assim aconteça para resolvermos mudar. Observe a sua vida. Você  precisa sofrer mais quanto tempo para mudar o que já sabe que deve ser mudado?

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