0017 – O nascimento do ego ferido

Ora, você pode estar se perguntando, “como um ego saudável se torna ferido e se corrompe?” O ego ferido toma forma quando acontece algo que o faz se sentir menos do que é – quando algo o ameaça, o agride, o repreende, o ignora, o rejeita, o molesta ou o abandona. Existem dezenas de milhares de situações diferentes que simplesmente acabam se revelando dolorosas demais para o ego saudável digerir. Quando a dor se torna insuportável, o ego saudável começa a se afastar da inteligência do ser integral e se torna uma  força com a qual precisamos acertar as contas – é aí que nasce o ego ferido.

O ego um dia saudável, ávido para se dissociar dos seus aspectos corrompidos ou feridos, começa a empurrar para as sombras essas partes de si, na tentativa de fazê-las desaparecer. Ele está certo de que, escondendo dentro de si as suas falhas e imperfeições, as suas inseguranças, os seus erros, a sua vergonha e as suas feridas, ninguém – nem ele próprio – descobrirá a verdade sombria e ele se manterá a salvo. É assim que o nosso eu integral, inteiro, aos poucos se fragmenta. Deixe-me dar um exemplo.

O  seu ego saudável matricula você numa escola de administração de empresas, inflamado pelo desejo de se tornar um executivo de uma das melhores empresas do país, líder de mercado. O seu ego saudável leva você a se destacar nas aulas, a aprender a defender os seus pontos de vista, a se instruir nos métodos administrativos mais modernos e inovadores e a analisar os profissionais mais bem sucedidos e que atingiram o topo da sua carreira. Quando você se forma, é contratado por uma excelente empresa e começa a sua escalada corporativa. Então um dia você percebe que muitos outros também acalentam o sonho de chegar ao topo (o ego sempre percebe a competição) e fica preocupado. O seu ego saudável sente-se agora ameaçado com a constatação de que você pode não ter condições de ser bem-sucedido. Esse pensamento dispara a vergonha oculta de que você pode não ser tão esperto quanto as outras pessoas. De repente você percebe que não pode ficar de braços cruzados, esperando que a sua carreira deslanche naturalmente. Você precisa ir à luta, como dizem por aí. Começa a prestar mais atenção ao que tem visto ou ouvido sobre como chegar ao topo e faz escolhas diferentes das que planejara – escolhas ditadas pela vergonha e baseadas no medo. Talvez comece a se socializar com pessoas com quem não se sentia bem antes. Talvez descubra que, se distorce um pouquinho a verdade, pode parecer mais eficiente aos olhos dos supervisores ou que, se “emprestar” as idéias de alguém, expondo-as como se fossem suas, pode ganhar uma promoção.

Embora você possa se sentir pouco à vontade com o que está fazendo, você racionaliza o seu comportamento, provavelmente de maneira inconsciente, e continua a percorrer o caminho do ego ferido em direção ao sucesso. Depois de alguns dias, meses ou anos de conflitos, causados pela voz da consciência que pode estar sussurrando, “Não faça isso” ou “ Você tem certeza de que isso é correto?”, você resolve não fazer caso dessa voz e ela de repente desaparece, para sempre enterrada. O ego ferido invadiu as fronteiras do ego saudável e reivindicou o seu território.

A invasão do ego ferido

Quando o ego doentio sente um certo perigo, ele automaticamente procura uma distração, e se esforça para proteger o seu território, que agora corresponde a todo o seu ser. Mesmo que ele comece sendo apenas uma parte do seu ser, devido à sua natureza enganadora e à sua incapacidade de distingui-la do seu eu autêntico, que abrange tanto o ego quando a sua essência eterna, ele se torna o único “você” que você conhece.

Embora às vezes você posa ter um momento de extrema lucidez, no qual deseja fazer uma escolha melhor, sem perceber você compara essa sabedoria com a voz do seu ego ferido. E é muito mais provável que faça a pior escolha, pois o seu ego ferido já causou um estrago tão grande em você, interiormente, que a voz dele é a única que consegue ouvir. Ela grita:

Como posso ter certeza?

Não posso confiar em ninguém.

Não há ninguém que me apóie.

Este é um mundo cão.

Que se danem! Eu trabalhei duro para ter o que tenho. Ninguém me facilitou as coisas!

Neste mundo nada é de graça.

Só existem duas certezas na vida: a morte e os impostos.

Já fui muito prejudicado; não vou me arriscar mais.

Ninguém sabe o que sofri.

Ninguém liga para mim.

Não vai fazer diferença mesmo.

Tenho todo o direito de ter o que eu quiser.

Mas que bando de larápios!

Sou muito melhor do que eles.

Veja até onde cheguei!

Isso não serve para mim.

Fizeram a cama, agora que se deitem.

São um bando de idiotas, eu não preciso ouvir o que dizem.

Estou conquistando o que mereço.

A voz do ego ferido, como uma fera acuada, ruge tão alta fora de hora que abafa a voz mais elevada da razão e força você a ignorar o seu eu superior. Ele tem que fechar a porta para a totalidade de quem você é  e concentrar-se no que está errado ou no que está faltando. Quando o ego está ferido, ele se recusa a ver, ouvir ou perceber qualquer verdade que não seja a que ele mesmo declara. Esse é o seu principal mecanismo de defesa. Pois, para sobreviver, ele precisa estar certo no seu modo de se ver, de ver as outras pessoas e de ver o mundo em geral. Ele precisa, sem sombra de dúvida, procurar e criar realidades, circunstâncias e situações que confirmem as suas crenças sobre o mundo. A função do ego ferido é agora se proteger a todo custo e bloquear qualquer coisa que o faça sentir a vergonha e a dor profundas que originalmente criaram a sua ferida. Quando o ego ferido assume o comando, ele se torna um fio desencapado, perigoso e fora de controle. Uma vez ferido, o ego perde a sua capacidade de distinguir fato de ficção, realidade de drama. Como um mecanismo de proteção, o ego ferido passa a se concentrar em si mesmo. Se ele está dirigindo o espetáculo, ou a sua vida inteira, é porque conseguiu mascarar a sua natureza superior, desconectá-lo de pelo menos metade de quem você é. O ego é um guerreiro magistral e tem muitos mecanismos para garantir a sua vitória. Ele trabalha diligentemente para proteger o seu território e para esconder os aspectos superiores do eu de modo que ele possa prevalecer. A principal defesa do ego doente – que acaba sendo a sua derrocada – é a arrogância. “Eu sou maior e melhor”, ele diz. “As regras não se aplicam a mim. Posso fazer o que quero e ninguém vai me pegar.” Em toda sua prepotência, ele grita, “Ninguém vai me dizer o que fazer!” Ou até pior: num leve sussurro, ele assegura, “Ninguém vai saber. Ninguém vai descobrir”.

Essas são, todas elas, mensagens do ego doente e a voz da separação. O ego ferido realmente acredita que pode agir de acordo com as próprias  leis e sair ileso. É isso o que ele faz – eis o nascimento da autossabotagem. Se as regras não se aplicam a mim, então posso e farei o que quiser e quando quiser. Enquanto a função do ego saudável é nos proporcionar uma identidade separada e única, o ego doente leva isso um passo adiante e tenta provar que somos únicos e especiais mesmo quando violamos a nossa integridade, desrespeitamos os limites das outras pessoas ou infringimos a lei.

Quando o ego ferido está no comando, o mundo exterior é visto apenas como alo que serve para preencher as suas necessidades e fazê-lo se sentir melhor. As outras pessoas são consideradas como curativos em potencial para as suas feridas, como problemas a serem resolvidos ou como obstáculos a tirar do caminho. O ego ferido, agindo separadamente do todo maior, é agora como um peixe fora d’água – ele salta incontrolavelmente, tentando encontrar o caminho de volta a sua segurança. Perdido e sozinho em seu senso de separação debilitante, ele busca maneiras de dar sentido à sua vida. Mas, em vez de se ver como parte de um todo maior, ele só consegue ver o que não tem. É incapaz de ver a vida como um todo e só consegue enxergar a partir da perspectiva estreita do eu limitado – sozinho, pequeno e aparentemente abandonado. Na tentativa desesperada de recuperar o controle, ele toma para si o papel de liderança e se lança como a estrela do espetáculo. De repente, a parte mais desesperada, deficiente e ferida de nós assume o controle. A invasão maciça do ego ferido teve início.

(Como entender o efeito sombra em sua vida – Debbie Ford)

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7 comentários sobre “0017 – O nascimento do ego ferido

    • Olá, Claudia! Grato por entrar em contato e deixar seu comentário. Este texto mexe mesmo com a gente. Primeiro, acredito que todos temos um ego ferido a ser curado. Não é à toa que ele está presente. Que tal reconhecê-lo, identificar suas artimanhas, suas dores, suas manipulações? Quando aceitamos que temos o ego ferido já é um passo verdadeiro para curá-lo. Ele nos distancia do nosso eu verdadeiro, sem dúvida. Mas, existiu um motivo, muitas vezes inconsciente, para ele prevalecer. A sugestão é: trate este teu lado com carinho, considere as necessidades dele, pergunte-se porque ele precisa estar presente, qual recado ele está passando. Assim, quem estará no comando é você e não ele. Você, aos poucos, vai se apropriando de si mesma, e então fortalecerá cada vez seu eu superior. Um grande abraço. Roque.

  1. Assumir ter um ego ferido creio que já seja um grande passo rumo a recuperação do indivíduo. Há alguns anos tive problemas amorosos e familiares, creio que isso desencadeou a ruptura de meu antes saudável ego. Amigos e pessoas próximas, inclusive minha última namorada notaram o quanto mudei. Costumava ser uma pessoa que fazia todos rirem, era mais presente… Mas aos poucos me tornei uma pessoa… não vou dizer amarga, mas, séria, distante, me isolei, costumo passar dias com o celular desligado e diversas vezes fingi não estar em casa para não receber visitas de amigos. Senti estar perdendo total contato com a realidade, entrei em depressões profundas, de só não me matar por – ainda ter coisas a terminar por aqui – ir embora deixando pontas soltas era algo que minha personalidade perfeccionista jamais me permitiria fazer, acho que esse traço foi o que me salvou afinal de contas. Não sei se sou bipolar, mas ás vezes, como agora enquanto aqui escrevo, sinto um lampejo de esperança, de que as coisas vão mudar e de que voltarei a ser quem era antes algum dia, que vou conseguir alcançar minhas metas e sonhos, porém, quando acordar amanhã, talvez veja o mundo em cores gris novamente. Como a mente humana é frágil e complexa, e ao mesmo tempo tão caótica quanto qualquer fenômeno que os astrônomos observam em seus telescópios… Espero conseguir passar por isso tudo e algum dia rir dessas palavras tolas.

    • Olá, Allan! Percebo que este texto o fez refletir bastante sobre o que aconteceu com você. Você tem uma avalanche de acontecimentos que o levou a este estado e parece não ter muitas respostas para isso. Muitas vezes as coisas que nos acontecem parecem ser as causadoras do nosso estado atual, mas não são tão óbvias como parecem. Nós somos seres educados para responder a uma sociedade cheia de regras, preconceitos, medos e crenças, e nossos sentimentos não têm a relevância que deveria. As vezes o caos se faz em nossa vida para que possamos sair da zona de conforto e trilharmos o caminho do autoconhecimento. Somos conduzidos a desafiar nossas crenças (perceba que o significado de crenças é tudo aquilo que você tem como verdade, não é no sentido religioso). E quem disse que esse caminho é fácil? Ele requer ousadia, determinação, disciplina e principalmente amor a si próprio.

  2. Gostei muito desse texto. Sinto que estou passando por isto , o confronto do ego. Quando você passa por situações constrangedoras e não consegue digerir isto , as vezes você pode esbarrar naquele jogo do 8 ou 80 , ou você reprime o ego , tornando-se uma pessoa servil que não se valoriza , ou se tornando uma pessoa extremista se super valorizando e usando de todas as armas para ganhar a luta. A sociedade , as religiões também influenciam muito nas nossas atitudes , mas no fundo , a gente acaba percebendo que se moldou por idéias e pontos de vista externos e nunca conseguiu alcançar o nosso verdadeiro eu.

  3. Engraçado outro Rodrigo tambem comentou kkk bom falando do texto certa parte do meu ego se encontra exatamente assim ainda não perdi controle completo mas to no caminho o problema é como curar o ego ferido ??

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