0008 – Fazendo as pazes com outros, com o mundo e consigo mesmo

Meu estudo da sombra começou na transição de uma pré-adolescente desajeitada para uma bela jovem adolescente.

Confusa e sozinha saí em busca de uma jornada a que me adequasse. Trabalhei duro para me sentir bem interiormente, apesar de estar cheia de insegurança sobre tudo, desde ser amiga e namorada, até ser irmã e filha. E lutei para compreender por que me sentia tão mal comigo. As vozes em minha cabeça que pareciam se apoderar de mim – ainda com doze anos – me deixavam repleta de pensamentos obscuros e negativos: “Por que você disse isso?”, “Não seja tola; ele nunca vai gostar de você”, “Você é uma idiota”, “Não se imponha tanto, as pessoas vão invejá-la”, e assim por diante. Achava estranho e confuso ouvir essas vozes dentro da minha cabeça, porque num minuto me diziam que eu não era nada além de uma mimada ranheta, e no dia seguinte me convenciam de que eu era melhor, mais bonita, mais inteligente e mais talentosa que qualquer pessoa.

Uma guerra interna explodia em minha psique. Primeiro era “Você é ótima!”, depois: “Você não é nada além de uma pequena mentirosa”. “Todo mundo gosta de você porque é gentil e meiga”, e alguns minutos depois: “Você é uma piranha de coração gélido que não merece ter amigo algum”. Essas vozes me deixavam profundamente confusa quanto a quem eu era. A coexistência de mensagens positivas e alertas negativos criou uma devastação dentro de mim e eu chorava, desvairadamente, ou fazia tudo para passar bons sentimentos a qualquer um que estivesse disposto a receber meu amor. À época, chamavam isso de hormônios. Era esperado de uma garota da minha idade um comportamento desordenado; porém, o meu era ligeiramente mais melodramático, o que me rendeu o título de “rainha do drama” na vizinhança.

Enfim, ganhei um concurso, só que a coroa veio com projeções negativas da minha família e muitas risadas dos amigos dos familiares que sabiam da minha vergonha íntima. Comecei a me sentir cada vez mais importante em relação ao meu falatório interno. Até que cheguei à conclusão de que decididamente havia algo errado comigo e não havia nada que eu pudesse fazer para consertar. Tentava, com toda minha força, silenciar as vozes, fazê-las calar, tentando convencer a mim mesma de que realmente estava bem. Meus momentos de paz e felicidade se tornavam cada vez menos freqüentes, exceto quando ouvia uma música de que gostava muito ou quando brincava com meus amigos. Mas, no silêncio do chuveiro, ou na pressa da manhã, rumo à escola, ficava cada vez mais difícil me livrar do estrangulamento dos demônios interiores, cujas vozes pareciam um coro de igreja desafinado. Em vez de sentir compaixão e gentileza em relação a mim mesma, sentia-me impotente, hostil e zangada.

Conforme meu desconforto interno aumentava, comecei a buscar por algo que pudesse silenciar minha mente horrenda e fazer com que me sentisse melhor comigo mesma. Minha busca por momentos de bem-estar começou com algumas comidas: brownies da Sara Lee e um litro de coca-cola criavam o ardil. Aprendi a entrar silenciosamente no quarto dos meus pais, durante o jantar, e roubar dinheiro da carteira deles para obter minha dose diária. Começou bem fácil, porque a loja do 7-Elevan era do outro lado da rua, na avenida 46, em Hollywood, Flórida.

Conforme os meses se passaram, aquela dose já não era suficiente. As vozes ruidosas e sombrias conseguiram invadir meus momentos de prazer, induzidos pelo açúcar. Precisava encontrar outra coisa para lidar com essas invasões indesejáveis e colocar um sorriso de volta no rosto – mesmo quando os sorrisos eram recebidos com uma voz interna ocasional ameaçando “arrancar o sorriso de minha cara”.

Minha fome interna de me sentir bem logo se tornou maior que minha necessidade de que as pessoas gostassem de mim, ou de ser vista como uma boa “jovem decente”. Fui tomada pelo impulso de mudar a maneira como me sentia. Meu vício pelo açúcar rapidamente se tornou algo maior, e experimentei o primeiro cigarro e drogas. Maconha, que nunca foi a minha favorita, se transformou em pílulas, barbitúricos, ou bolas, como eram chamados naquela época. Disso, passei a psicotrópicos, o que me levou a muitas outras substâncias. Enquanto me dava bem no uso de drogas para criar momentos de completa paz – o mantra de quase toda canção popular daquela época -, enraizei,  em minha jovem psique, uma forma de pensar e agir que me convencia de que meu bem-estar dependia da busca de algo fora de mim que me fizesse sentir melhor.

Com o passar do tempo, aprendi que os impulsos assustadores que frequentemente surgiam em meu comportamento não deveriam ser examinados nem expressados, mas ocultos e reprimidos, a qualquer custo. Devagar, deixei, de ter qualquer semelhança com a criança inocente que havia sido e criei uma personalidade que exalava confiança e sucesso. Quanto mais eu brincava na escuridão dos meus demônios humanos, mais forte era o impulso de esconder meus sentimentos de vergonha e indignidade. Comecei a compensar as minhas fraquezas me tornando encantadora, amistosa, descolada e inteligente, com uma compreensão do mundo exterior. Apesar das minhas dificuldades terríveis na escola, por estar ocupada demais ouvindo a loucura da minha mente, em vez de escutar o que a professora dizia na aula, embrulhei-me numa embalagem de perspicaz e fingia ter opinião, sabendo de tudo, torcendo para poder enganar qualquer um, incluindo eu  mesma, para acreditar que eu não era a irmã caçula imbecil de Linda e Michael Ford.

Observava o que as garotas ricas vestiam e implorava aos meus pais que me comprassem roupas de arrasar, ou encontrava um grupinho de garotas no shopping, nas manhãs, de sábado, para roubar o que eu não tinha, de modo que ninguém descobrisse que eu era de uma família judia de classe média. Não achava legal ser uma garota judia e já tinha ouvido minha cota de piadas sobre garotas judias, então, observava como as shikas da cidade (as belas meninas não judias – em geral louras) se comportavam e assumia aquelas características e comportamentos como parte de minha máscara cuidadosamente desenhada para esconder minhas falhas e imperfeições interiores.

Era um jogo que eu nem sequer sabia que jogava naquela época. Se descobrisse algo sobre mim mesma que não fosse aceitável ao meu ego ideal, começava a buscar no mundo externo quem era aceitável, e com a sensibilidade de uma verdadeira artista esculpia uma nova versão minha, dando a ilusão de que eu era a pessoa que queria ser, em vez daquela que temia ser. O problema era que, independentemente de quanto me compensasse pelo que me amedrontava ou envergonhava, no silêncio de minha mente eu sabia a verdade sobre quem era por baixo da minha máscara pública. Embora alguns pudessem ver através da encenação gloriosa que eu havia criado, para a maioria, eu me tornara um ser humano bem-sucedido, porque poderia enganar os que estavam ao meu redor.

Iludia as pessoas para que acreditassem nas minhas dissimulações. Conseguia arrebanhar pessoas para a minha vida feliz ao sorrir e contar minhas proezas do dia. Ou podia convidá-las para uma de minhas narrativas favoritas – “pobre de mim” – na qual interpretava a donzela aflita. De qualquer maneira, me tornei mestre em esconder não apenas dos outros, mas também, ou sobretudo, de mim mesma. Não sabia quem eu era, ou o que realmente queria. Não sabia o que de fato me deixava feliz, ou o que me deixava vazia e isenta de emoções. Minha sombra estava no controle, apesar de achar, em toda a minha arrogância, que eu é quem estava no comando. O lado sombrio realmente tinha ganhado, até que minha personalidade começou a desmoronar.

Assim como o Humpty Dumpty, que caiu por terra, quando cheguei aos 27 anos já tinha perdido minha personalidade “estou com tudo em cima” e estava aos prantos, no chão de um centro de tratamento. Foi ali que fiquei cara a cara com a verdadeira Debby Ford – com todas as suas falhas, fraquezas e qualidades deserdadas, assim como talentos, fortalezas e carências internas, profundamente ocultas. Foi ali que eu soube que era mais do que podia imaginar, e que não era nada além dos seis bilhões de seres humanos lutando para fazer as pazes com seu lado sombrio e as vulnerabilidades humanas.

Foi durante esse encontro muito humilhante comigo mesma que me comprometi a aprender quem e o que eu era, e por que me sentia obrigada a fazer as coisas que eu fazia. Foi nessa época crucial que entendi a sombra humana e o efeito que ela tinha em minha vida e na vida dos que me cercavam – não como uma teoria de livro, mas como uma mulher que lutava para lidar com os próprios sentimentos indesejados e profundas inseguranças.

Levada por fortes sentimentos de solidão que surgiam pela falta de entendimento de quem eu era e por que estava ali, comecei minha jornada para me tornar íntima de meu lado obscuro, do meu self sombrio. Esse momento de ajuste de contas se tornou um catalisador para levar uma vida além do que eu podia imaginar. Isso me incentivou a estudar e dar importância não apenas ao meu próprio comportamento humano, mas ao comportamento de centenas de milhares de pessoas a quem tenho tido o privilégio de conduzir a esse território do self rejeitado, e à gloriosa descoberta de uma vida ainda a ser vivida.

Não foi a minha luz que me levou à sabedoria que compartilhei em meus sete últimos livros, mas a minha batalha com meu lado sombrio (e a rendição final da guerra interior) é que foram meus guias e minha inspiração. Foi a própria escuridão, de quem fiquei fugindo durante a primeira parte da vida, que agora é minha paixão e meu combustível para ajudar outras pessoas nessa jornada mágica através da psique humana para viver à luz de sua maior expressão. É um chamado espiritual, uma voz superior que pergunta a mim e a você: Você está pronto a embarcar nessa jornada e reivindicar seu eu completo, a luz e a escuridão, seu self bom e seu irmão gêmeo perverso? Está pronto a recorrer ao amor do self verdadeiro, total e autêntico, em vez de continuar encurralado na angústia do julgamento de um ego humano desarticulado?

Tornar-se íntimo de sua sombra é uma das investigações mais fascinantes e frutíferas que você poderá fazer. É uma jornada misteriosa que o conduzirá ao descobrimento de seu self mais autêntico – um lugar onde você se sente à vontade com quem você é, onde reconhece suas fraquezas e seus pontos fortes, onde pode apreciar seus talentos, admitir suas imperfeições e admirar sua grandeza. Esse self que está escondido por baixo da máscara de sua personalidade humana é aquele que você ficará radiante em ser, um self que sabe quem é e honra a jornada humana. Esse self que você descobrirá, à medida que abraçar mais e mais seus aspectos ocultos, oferece a confiança para falar a verdade e buscar o que é, de fato, importante para você. É irônico que, para encontrar a coragem de levar uma vida autêntica, você terá que entrar nos cantos escuros de seu self mais forjado. Você precisa confrontar exatamente aquelas suas partes que mais teme e encontrar o que estava procurando, porque o mecanismo que o leva a esconder sua escuridão é o mesmo que o faz esconder a luz. Aquilo do que você anda se escondendo pode, na verdade, lhe dar o que você vem tentando encontrar com tanto afinco. (O efeito sombra – encontre o poder escondido na sua verdade – Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson; Ed Lua de Papel)

 

 

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