0006 – Técnicas para lidar com a dor

Aceitar a dor assim como ela é

Primeiro tente entender o que significa a expressão “aceitação daquilo que é”. Buda depende muito dessa expressão. Na linguagem dele, a palavra é tathata, aceitação daquilo que é. Toda a orientação budista consiste em viver essa palavra, em viver com essa palavra com tamanha profundidade que a palavra desaparece e você se torna a aceitação daquilo que é.

Por exemplo, você fica doente. A atitude de aceitação daquilo que é consiste em aceitar a doença e dizer a si mesmo, “Tal é o caminho do corpo” ou “É assim que as coisas são”. Não lute, não comece a travar uma batalha.

Depois que aceitar, depois que deixar de reclamar e parar de brigar, a energia passa a ser uma só por dentro. A ruptura se desfaz e muita energia passa a ser liberada, pois deixa de haver conflito e apropria liberação da energia passa a ser uma força de cura.

Algo está errado no corpo: relaxe, aceite isso e simplesmente diga para si mesmo, não só com palavras, mas sentindo profundamente: Tal é a natureza das coisas. O corpo é um conjunto, muitas coisas se combinam.

Aceite isso e não se identifique. Quando aceita, você fica acima, você transcende. Quando luta, você desce para o mesmo nível. Aceitação é transcendência. Quando aceita, você fica sobre uma colina e o corpo é deixado para trás. Você diz, “Sim, tal é a sua natureza. O que nasce tem de morrer e, se tem de morrer, às vezes fica doente. Não é preciso se preocupar tanto” – fale como se isso não estivesse acontecendo com você, só acontecendo no mundo das coisas.

Essa é a beleza: quando não está lutando, você transcende e deixa de ficar no mesmo nível. Essa transcendência torna-se uma força de cura. De repente o corpo começa a mudar.

O mundo das coisas é fluxo; nada é permanente ali. Não espere permanência! Se esperar permanência neste mundo onde tudo é impermanente, você provocará inquietação.  Nada pode ser para sempre neste mundo; tudo o que pertence a este mundo é momentâneo. Essa é a natureza das coisas, a aceitação daquilo que é.

Se você relutar em aceitar um fato, viverá o tempo todo na dor e no sofrimento. Se aceita-lo sem nenhuma queixa, não num estado de impotência, mas de compreensão, trata-se de aceitação daquilo que é. Dali em diante você deixa de ficar preocupado e não existe mais problema. O problema surgiu não pro causa do fato, mas porque você não o aceitava da maneira como estava acontecendo. Você queria que ele seguisse os seus pensamentos.

Lembre-se, a vida não vai seguir você, você é quem tem de segui-la. Com má vontade ou com alegria, a escolha é sua. Se você seguir com má vontade, sofrerá. Se segui-la com alegria, você se tornará um Buda e a sua vida se tornará um êxtase.

Entrar na Dor

Da próxima vez que você tiver uma dor de cabeça, tente fazer uma pequena técnica de meditação, só para experimentar; depois você pode aplicá-la nos casos de doenças ou sintomas mais graves.

Sente-se silenciosamente e observe a dor de cabeça – não como se estivesse olhando para um inimigo, não dessa forma. Se você olhá-la como se estivesse diante de um inimigo, não dessa forma. Se você olhá-la como se estivesse diante de um inimigo, não conseguirá olhar para ela diretamente, você a evitará. Ninguém olha para o inimigo diretamente; a pessoa o evita. Olhe para a dor de cabeça como se ela fosse sua amiga. Ela é sua amiga; ela está a seus serviços. Ela está dizendo, “algo está errado, veja o que é”. Sente-se simplesmente em silêncio e olhe para a sua dor de cabeça sem pensar em acabar com ela, sem querer que ela pare, sem conflito, sem briga e sem antagonismo. Simplesmente olhe para ela, para o que ela é.

Observe, de modo que, se houver alguma mensagem interior, a dor de cabeça possa transmiti-la a você. Ela tem uma mensagem codificada. E, se olhar para ela silenciosamente, você ficará surpreso. Se olhar silenciosamente, três coisas acontecerão.

Primeiro, quanto mais você olhar para ela, mais forte ela ficará. Aí você vai ficar intrigado: “No que isso vai ajudar se a dor de cabeça fica mais forte ainda?” Ela vai ficar mais forte porque antes você a estava evitando. Ela só doía porque você a estava evitando; você já a estava reprimindo mesmo sem ter tomado uma aspirina. Quando você olha para ela, dentro dela, a repressão acaba. A dor de cabeça passa a ter a intensidade natural. Ai você estará ouvindo com ouvidos destampados, sem algodão nos ouvidos. A dor ficará mais forte.

A segunda coisa é que a dor também ficará mais localizada; ela não se espalhará por uma grande área. Antes você pensava, “Toda a minha cabeça está doendo”. Agora você vê que não é toda a cabeça, mas só um pequeno ponto. Essa também é uma indicação de que você está olhando para ela mais profundamente. A sensação de que a dor atingia a cabeça é um truque, um jeito de evitá-la. Se ela se concentrar num ponto, ficará mais forte, então você cria a ilusão de que ela pega a cabeça toda. Quando a dor se espalha por toda a cabeça, ela não fica tão intensa em nenhum ponto. Esses são truques que nós continuamos usando.

Olhe para a dor e o segundo passo é ver que ela começa a ficar cada vez mais concentrada. Até que chega um ponto em que ela é apenas uma agulhada – muito aguda, extremamente aguda e dolorosa. Você nunca sentiu tanta dor de cabeça antes, mas ela se limita a um único ponto. Continue olhando para a dor.

A terceira coisa é a mais importante que acontece. Se continuar olhando para esse ponto quando a dor de cabeça ficar mais forte, localizada e concentrada, você verá que ela muitas vezes desaparece. Quando o seu olhar é perfeito, ela desaparece. E, quando desaparece, você tem um vislumbre da sua origem, do que a causou. Quando o efeito desaparece, você vê a causa.

Acontecerá muitas vezes; a dor de cabeça voltará. O seu olhar deixa de ser tão alerta, concentrado, atento e a dor de cabeça volta. Sempre que o seu olhar for realmente verdadeiro, a dor de cabeça desaparece e, quando isso acontece, escondida atrás dela está a causa. Você ficará surpreso ao perceber que a mente está pronta para revelar a causa.

Tornar-se a dor

Sofrimento significa resistência. Você precisa resistir a algo, só então poderá sofrer. Experimente. Você dificilmente será crucificado, mas existem crucificações diárias, pequenas. Elas acontecerão.

Você tem uma dor na perna ou uma dor de cabeça. Pode ser que você não tenha observado o mecanismo dessa dor. Você tem dor de cabeça. Você é contra ela e provoca uma divisão em si mesmo; você está em algum lugar dentro da sua cabeça e a dor de cabeça também está. Você e a dor de cabeça estão separados e você insiste em achar que não deveria ser assim. Esse é o verdadeiro problema.

Experimente uma vez não brigar. Flua com a dor de cabeça e torne-se essa dor. Diga, “É assim que é. É assim que está a minha cabeça agora e nada mais é possível neste momento. Pode ser que seja no futuro, mas neste momento a minha cabeça está doendo”. Não resista. Deixe que ela aconteça e deixe que você e ela sejam uma coisa só. Não se separe dela, mas flua para dentro dela. Haverá então um súbito rompante de um novo tipo de felicidade que você não conhecia ainda.

Quando não há resistência, até uma dor de cabeça deixa de ser dolorosa. É a luta que causa a dor. A dor sempre significa brigar contra a dor – essa é a dor de verdade.

Tente quando tiver uma dor de cabeça, quando o seu corpo estiver doente, quando alguma dor o afligir; simplesmente flua com a dor. Assim que deixar que isso aconteça, você descobrirá um dos segredos mais profundos da vida, o de que a dor desaparece se você fluir com ela. E, se você conseguir fluir completamente, a dor vira felicidade.

Você está sentindo dor, o que está realmente acontecendo dentro de você? Analise todo o fenômeno; a dor está ali e existe a consciência de que a dor está ali. Mas não existe nenhuma lacuna e, de alguma forma, você sente que está com dor. Essa sensação acontece, você sente que “está com dor”. E não apenas isso; mais cedo ou mais tarde, você começa a sentir que você “é a dor”.

“Eu sou a dor, eu estou com dor; eu estou consciente da dor” – esses são três estados muito, mas muito diferentes. A consciência transcende a dor, você é diferente dela e existe uma separação profunda. Na verdade, nunca existe nenhuma relação entre você e a dor; ela só começa a existir por causa da proximidade, por causa da grande proximidade entre a sua consciência e todo o que acontece à volta dela.

A consciência está muito próxima quando você está com dor; ela está ali ao seu lado, muito próxima. Ela tem de estar, do contrário, a dor não pode ser curada. Ela tem de estar bem perto para que você a sinta, para que você a conheça e esteja consciente dela. Mas, por causa dessa proximidade, você fica identificado e vocês se tornam uma coisa só. Isso também é uma medida de segurança, além de ser uma segurança natural. Se existe dor, você tem de estar perto; quando existe dor, a sua consciência tem de se precipitar na direção da dor – para senti-la e fazer alguma coisa a respeito.

Mas, por causa dessa necessidade, outros fenômenos acontecem. Por estarem tão próximos, você e ela se tornam uma coisa só; por estarem tão próximos, você começa a sentir que ela é você, e o mesmo acontece com o prazer. Por causa da proximidade existe uma identificação; você se torna a raiva ou se torna o amor; você se torna a dor ou se torna a felicidade.

Você não é o que pensa, sente, imagina e projeta; você só é o fato de estar consciente. A dor está ali; no momento seguinte ela pode não estar – mas você estará. A felicidade vem e vai embora; ela está presente agora e depois não estará mais; mas você estará. O corpo é jovem, depois fica velho. Todo o resto vem e vai embora; os hóspedes vêm e vão embora, mas o anfitrião continua o mesmo.

Lembre-se do anfitrião. Lembre-se sempre do anfitrião. Concentre-se no anfitrião, mantenha-se na sua condição de anfitrião. Assim haverá uma separação, haverá uma lacuna, um intervalo. A ponte se parte e, no momento em que ela se parte, o fenômeno da renúncia acontece. Você passa a estar no fenômeno, mas não pertence a ele. Você está no convidado, mas continua sendo o anfitrião. Você não precisa fugir do convidado, não há necessidade.

Fique onde você está, mas não fique centrado no convidado. Fique centrado em si mesmo, lembre-se do anfitrião.

Reparar duas vezes

Buda ensinou aos discípulos que, se tivessem dor de cabeça, simplesmente dissessem duas vezes: “Dor de cabeça, dor de cabeça”. Repare, mas não analise. Não diga, “Por quê?” “Por que a minha cabeça está doendo? Ela não deveria estar”.

Deixe que essa dica fique muito bem entendida: se você conseguir testemunhar a dor de cabeça sem tomar nenhuma atitude antagônica, sem evitá-la, sem fugir dela; se conseguir ficar simplesmente ali, num estado meditativo, simplesmente repetindo “Dor de cabeça, dor de cabeça”; se conseguir simplesmente olhar para ela, a dor de cabeça desaparecerá a seu tempo. Não estou dizendo que ela sumirá como que por milagre, que, só pelo fato de olhá-la, ela irá embora. Ela irá embora a seu tempo. Mas não será absorvida pelo seu organismo, não envenerará você. Ela ficará ali, você reparará nela e ela irá embora. Será liberdade.

Fique como uma pedra, fechado para o mundo. Quando estiver fechado para o mundo de verdade, você também estará fechado para o seu próprio corpo, pois o corpo não faz parte de você; ele faz parte do mundo. Quando você está completamente fechado para o mundo, você também está fechado para o seu próprio corpo.

Você está deitado na cama, sente os lençóis frios, como se estivesse morto. De repente os lençóis começam a desaparecer cada vez mais, até desaparecerem por completo. A cama desaparece; o seu quarto desaparece; o mundo inteiro desaparece. Você está fechado, morto, como uma pedra, como uma mônada leibnitziana, sem nenhuma janela para fora. Você não pode se mover. Então, quando estiver ali sem poder se mover, você é arremessado de volta para si mesmo, fica centrado em si mesmo. Pela primeira vez, então, você conseguirá ver a partir do seu próprio centro.

(Osho)

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